Psicologia da Criança para Adultos – A Educação, o Trânsito e a Criatividade

Publicado: sexta, 15 de agosto de 2008 as 14:04h Faça seu comentário

Amanhece o dia e o pai sai de carro com a filha para conduzi-la a escola. De imediato, ela põe o cinto de segurança, observa, e em poucos instantes questiona, com tom educativo: - E o cinto pai!? Em silêncio, ele coloca o cinto de segurança e prosseguem a rotina. O mérito de tal ação educativa com certeza pertence aos educadores que desde idades precoces no desenvolvimento das crianças têm se preocupado com uma «educação efetiva», que vai para além dos muros da escola. O que a escola ensina tem que ter uma utilidade prática para a inserção dos indivíduos na sociedade em que vivem: ela também ensina princípios de civilidade.

Tendo em vista os índices elevados de violência e acidentes que envolvem condutores de veículos, a introdução da educação para o trânsito no ambiente escolar nos dias atuais é tema de atualidade. Tudo isto é uma questão da organização do tempo e dos conteúdos escolares para que a escola consiga oferecer uma educação para este fim. Na verdade, escrever sobre este tema nos remete a outros de natureza similar.

Educação de um povo e de uma criança é uma questão de persistência. Em determinados contextos têm-se que «bater na mesma tecla» durante muito tempo e por várias vezes. A educação para o trânsito é uma dessas ações que merecem regularidade. Parto do princípio que, quanto mais cedo dermos início a esse tipo de educação menores serão as intervenções coercitivas e punitivas no adulto condutor. O que acontece na verdade é uma outra realidade.

As vias públicas deveriam ser respeitadas segundo suas regras de circulação tanto por condutores como por pedestres e habitantes de uma comunidade. Esta é uma regra básica, porém nem sempre devidamente praticada pelo povo.

Em Mariana, as justificativas apresentadas são de fácil compreensão, como, por exemplo, é impossível caminhar pelos passeios. Moradores desconhecem e desrespeitam princípios entre o que é público e o que é privado fazendo das entradas para suas garagens obstáculos que impossibilitam o trafegar livremente pelos passeios. Crianças e adultos são obrigados, ou melhor, forçados a andarem nas ruas, por onde deveriam trafegar apenas os carros e demais veículos. Outro fato é que em determinados locais muros de casas invadem sobre os passeios deixando pouco espaço para a circulação dos pedestres. Isto não é questão de Prefeito A ou B, mas sim de falta de princípios básicos de civilidade, de respeito mútuo entre os indivíduos. Como definem os dicionários, civilidade é «o respeito pelas normas de convívio entre os membros de uma sociedade». A civilidade também deveria ser ensinada às crianças desde cedo, nos seus primeiros contatos com a cultura e a sociedade.

Neste cenário, condutores são vítimas de suas imprudências e dos índices elevados de circulação de pedestres pelas vias de circulação de veículos. Há uma desordem aparente no trânsito: as regras de prioridade muitas vezes se «definem pela força e imprudência» dos que circulam pela cidade. A questão que fica no ar, sem resposta, é a seguinte: como iremos ensinar as crianças a respeitarem regras de trânsito se um número significativo de adultos, pais, não as respeitam? Olhe aí, por exemplo, ao nosso lado, adultos que consomem álcool e assumem a direção de seus veículos na presença ou na ausência de crianças. Muitas vezes a escola educa e a sociedade deseduca. Portanto, é necessário persistir com a educação no ambiente escolar para o trânsito e para a ocupação dos espaços públicos.

Há espaço para todos nos ambientes e nas vias públicas. É necessário, todavia, dar condições para que as pessoas encontrem o seu espaço. Por exemplo, há anos, em frente a uma das mais importantes escolas públicas do ensino infantil não se tem sinalização indicando a prioridade dos estudantes-pedestres para atravessarem as ruas com faixas brancas pintadas na pista e sinalização para pedestre. Periodicamente temos a presença da guarda municipal, que resolve o problema parcialmente.

Há um paradoxo no aspecto educação para o trânsito. Ensina-se dentro da escola que é necessário ao cruzar uma via pública respeitar a sinalização : atravessar somente quando houver sinalização verde e, de preferência, sobre a faixa para pedestre. É necessário dar condições para que os indivíduos possam respeitar as regras. Por um lado, não há sinalização luminosa para pedestre em nenhum semáforo da cidade e, por outro, as faixas para pedestre, quando existem em frente as escolas, ou estão apagadas ou os condutores não as respeitam.

Finalmente, a educação para o trânsito no contexto educacional deve conduzir as crianças a reconhecerem seus direitos e deveres na ocupação e na circulação nos espaços públicos de forma a manterem a civilidade ideal para uma boa convivência entre os indivíduos de sua comunidade. Isto é da responsabilidade de todos.

Francisco Moura
Professor de Psicologia da Universidade Federal de Ouro Preto

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