Psicologia da Criança para Adultos - Cultura da Violência

Publicado: quinta, 19 de junho de 2008 as 22:57h Faça seu comentário

A Professora Magdalena Gastelois, que faleceu faz pouco tempo, que era muito amiga minha, gostava sempre de afirmar que "cultura vem de berço" parafraseando a expressão usual e popular que afirma que "a educação vem de casa", ou, como ela propõe, "educação vem do berço". Em outras palavras, cultura e comportamento social nascem dentro de casa, no contato com os pais e familiares. O tema de hoje tem me inquietado muito nos últimos anos e em edições anteriores deste semanário escrevi sobre o tema "Violência gera Violência" e sobre a "Relação Pai versus filho". Hoje, em função de uma série de fatores senti na obrigação de retomar o assunto por causa da minha inquietação quanto ao tipo de educação dispensada para as crianças; mais precisamente para os meninos.

É necessário antever que aspectos de uma cultura fundada no machismo, em que a educação dos filhos se sustenta basicamente neste princípio, ostenta uma modalidade de comportamento que pode ser identificado nas expressões de alguns pais, do tipo : (filho) homem não chora, se apanhar na rua, também apanha em casa, tem-se que ter várias namoradas - e se possível ter relações com todas, para não dizer de outra forma -, se te baterem, revide com a mesma intensidade, entre outras expressões.

Recentemente, um colega que há muito tempo não o via, repetia com orgulho, que caso o seu filho apanhasse na rua (nas brigas infantis) ele também apanharia em casa. Portanto, entendo que há nas entrelinhas do seu propósito uma indução à violência e, mais forte ainda, uma violência que seja mais violenta que a violência sofrida. No meu entendimento, isto é um culto à cultura da violência.

No entanto, em um único dia uma pessoa querer interromper este processo é inócuo, pois, é necessário um movimento cultural constante e repetitivo em prol da não violência.

Muitos sonhos às vezes parecem utopias irrealizáveis. Mas alguém tem que começar a sonhá-los, não é mesmo? Se fizermos uma retrospectiva da história da humanidade constataremos que muitos comportamentos violentos, canibais, animalescos foram « domados » pela sociedade. As regras sociais são instâncias, não estáticas, culturalmente constituídas para controlarem forças destrutivas instintivas que jazem no interior de cada um de nós. Em teoria, podemos afirmar que quanto mais evolui um grupo humano menos violento ele tende a ser. É necessário distinguir evolução de grupos humanos de desenvolvimento econômico; a cultura do desenvolvimento econômico baseada no capitalismo conduz a outros tipos de violência.

A luta pela extinção da cultura da violência tem que começar em casa nos pequenas gestos.

Existem formas alternativas para educarmos nossos filhos e nossas crianças sem induzi-los à violência; e se assim aprenderem, eles serão capazes de orientarem seus colegas à não violência, à construção coletiva de uma forma alternativa para viverem em grupo e com colegas em que o respeito ético e moral seja o norteador dessas interações.

Francisco Moura
Professor de Psicologia da Universidade Federal de Ouro Preto

 

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