A disciplina é uma condição básica para favorecer qualquer tipo de aprendizagem. Optei por começar por esta afirmativa pelo fato de considerar a "disciplina do comportamento" um método, um meio, e não um fim para aprender algo. Ou seja, é imprescindível estabelecer um método de trabalho para obter sucesso, tanto na nossa vida profissional como para a aquisição de novo conhecimento.
Há, portanto, necessidade de desvincular o conceito de "disciplina escolar" da exigência autoritária ou cobrança obsessiva e rigorosa pela ordem no ambiente escolar. Sem dúvida, acredito ser de responsabilidade da escola e do professor a introdução de regras básicas de conduta educacional e de aprendizagem dentro do ambiente escolar. Mesmo que determinados alunos não tenham adquirido essas regras antes de ali chegarem, a escola deve se esforçar para introduzir nos comportamentos desses alunos a disciplina.
Isto pode ser traduzido por: respeitar as regras institucionais, respeitar os limites, saber comportar em grupo etc., sem que as regras escolares sejam autoritárias. Desde a transformação dos métodos pedagógicos, que abandona os modelos tradicionais que recorriam a exigência da disciplina como um procedimento pedagógico indispensável para a condução de um grupo de alunos, até os dias atuais, os sistemas educacionais não conseguiram encontrar procedimentos que aliassem o interesse dos alunos à disciplina no ambiente escolar.
O que tem sido evidente no comportamento educativo sócio-familiar dos últimos anos é uma postura baseada na ausência de repressão de diferentes ordens. Pais têm preocupado com uma educação fundada no princípio do diálogo e da liberdade. Esta postura é um reflexo no adulto de experiências negativas que viveu nos anos anteriores pela repressão do sistema de governo. O poder dos governantes se confundia com um tipo de autoritarismo perverso e antidemocrático que exigia disciplina pela repressão. Seja pela repressão ou não, a conclusão em evidência é que educar um indivíduo - aluno ou filho - é uma tarefa muito complexa.
Nessas condições é um risco afirmar que a indisciplina dos jovens na escola é devido às desestruturações familiares, pois, famílias "super" bem estruturadas, nos modelos mais tradicionais que se possa pensar, vivenciam este mesmo problema com seus filhos na escola; e ele não é indisciplinado com todos os seus professores, apenas com alguns. Colocar a culpa sobre alguém é um erro, pois se trata de um processo. Em poucas palavras, indisciplina é a ausência de um método.
O que incomoda aos professores no ambiente escolar é o recorrente e elevado índice de indisciplina dentro da sala de aula. Muito freqüentemente utiliza-se deste argumento para indicar que baixos rendimentos e dificuldades na aprendizagem são decorrentes de elevada indisciplina por alguns alunos na sala de aula, associando os piores resultados àqueles que fazem bagunça ou são considerados como indisciplinados. Inclusive vincula-se o fracasso escolar, em determinadas situações, a este aspecto.
Considerando que disciplina é um método para aquisição do conhecimento, podemos deduzir que nos casos em que não há a disciplina é mais freqüente este aluno ter mais dificuldade na aquisição de conhecimento. Isto não quer dizer que ele tenha uma deficiência cognitiva a princípio. Suas competências cognitivas não estão sendo colocadas em prática pelo fato de não conseguir ter concentração e atenção suficiente para as tarefas exigidas pela escola.
Finalmente, compete ao educador e à escola criarem um método pedagógico adaptado a seus alunos para que a indisciplina não seja um empecilho na aquisição do conhecimento escolar e que os estudantes respeitem as normas e regras fixadas: implementação de combinados que sejam assumidos por todos envolvidos. Sem, contudo, fazer dessas regras um instrumento de exclusão dos alunos indisciplinados.
Apesar de haver controvérsias, normalmente aqueles alunos indisciplinados também o são em casa e muito freqüentemente seus pais têm dificuldades para introduzir regras de disciplina; então, nesses casos, a escola funciona como parceira, como um apoio à educação dada pelos pais.
Francisco Moura
Professor de Psicologia da Universidade Federal de Ouro Preto


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