As relações no grupo familiar são marcadas pelo papel que cada indivíduo ocupa segundo o seu gênero - masculino ou feminino. Há, portanto, na relação da mãe com a filha uma significativa semelhança ao que se observa na relação do pai com o filho, ou seja: a filha irá se identificar com a mãe e tê-la como modelo a ser seguido. Mas, desde o início, antes e após o nascimento, a mãe já concebeu uma criança ideal: imaginando como ela seria após o nascimento, que nome teria e até o que ela faria com a criança em termos de tipo de roupas, de enfeites no cabelo, etc. Após o nascimento é todo um sonho que se concretiza na figura da filha. Isto não quer dizer que com o nascimento de um menino seria diferente. A relação da mãe com o filho veremos na próxima edição.
A menina quando brinca de boneca está ensaiando a maternidade que terá quando tiver seus filhos; e a mãe quando cuida de seus filhos revive o que experimentou quando era criança brincando de bonecas e de casinha. Na brincadeira a menina revive uma função social de mulher (papel social de mulher segundo seu contexto sócio-familiar) e outra função segundo o gênero feminino (o de ser mãe). Há, sem sombra de dúvida, muita proximidade entre esses dois fenômenos. Daí a tese que afirma ser o desejo de querer ter uma criança uma experiência arcaica na história de cada mulher. Resumindo, a grosso modo, ficaria mais ou menos assim: toda mulher que brincou de boneca sonha em querer ter um/a filho/a. Para a mulher a maternidade e a maternagem são funções naturais e incorporadas no seu ser. Já para o homem, a função de criar os filhos deve ser construída progressivamente.
Talvez seja pelo fato de iniciar precocemente as representações dos papeis sociais vividos no ambiente familiar que a menina tem seu amadurecimento psico-social mais precoce: é mais responsável, se envolve "mais cedo" com os problemas da família, o amadurecimento biológico é mais rápido etc. Desde criança ela já começa a se impor nos jogos e brincadeiras principalmente quando se relaciona com as crianças menores, os amigos e os irmãos, manifestando uma força inata de dominação dentro desses jogos infantis que reproduzem as experiências domésticas e familiares. O menino, por sua vez, fica por mais tempo, na sua infância, vinculado às imagens dos super-heróis e demais jogos fantásticos, se importando pouco pelas rotinas do cotidiano doméstico.
É na relação mãe versus filha que se instaura a dupla função feminina: por um lado, o papel social em ser mulher e, por outro, uma dádiva inata em poder ser mãe. Nesta ótica, diria que a feminilidade é um fenômeno meta-cultural, que está para além da cultura, pois a mãe quando educa sua filha, inconscientemente, ela a introduz neste prisma em ser mulher e ser mãe. De outra forma, o não despertar do feminino na menina se inscreve no social, na cultura. Finalmente, não poderia deixar de destacar as mudanças nos dias atuais do papel social das mulheres, que tem modificado significativamente nesta era pós-moderna. A mulher é polivalente em todos os aspectos. Além de manter as tarefas já incorporadas pela tradição e a cultura - do lar - ela tem ocupado de forma expressiva outras funções no plano social. Portanto, este fenômeno também implicará no desenvolvimento de sua filha, porque à sua imagem e semelhança ela se constituirá um ser autônomo e igual à sua mãe, conforme descrevi acima.
Francisco Moura
Professor de Psicologia da Universidade Federal de Ouro Preto


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