Apesar da relação entre os membros de um núcleo familiar ser coletiva e implicar os diferentes atores que pertencem a este núcleo, existem algumas interações que são específicas entre alguns indivíduos segundo o papel que exercem na família. Essas particularidades podem ser isoladas e analisadas separadamente sem, contudo, fragmentar a dinâmica peculiar do ambiente familiar.
Na edição anterior sintetizei sobre a relação Irmão versus Irmão. Veremos a partir de agora as outras interações entre os demais pares: pai versus filha e filho, mãe versus filho e filha. De certa forma, este debate pretende desmistificar e responder de forma simples a questão presente na representação coletiva da sociedade que pode ser expressa da seguinte forma: é possível amar os filhos na mesma proporção e de forma igual?
O gênero masculino ou feminino é uma peça importante na configuração dessas relações: homem ou mulher, menino ou menina, se posicionam de forma diferente na inserção sócio-familiar. A diferença está para além da configuração anatômica, visto que esta diferença é apenas um aparato anatômico-fisiológico que não determina o feminino e o masculino nas relações sociais.
Independente desta diferença, quais são as particularidades da relação da filha com o pai e do Pai com a Filha? E quais são os impactos no tipo de relação de "preferência" pelo filho ou pela filha? De fato, o homem adulto, antes de se tornar pai, já criou seus ideais do que gostaria de fazer com um ou com o outro filho; e eles - os filhos - não conseguem compreender que a ação dos pais está diretamente ligada com esses ideais. Assim, os filhos traduzem essas relações por representações psíquicas errôneas que o pai tem preferência por um ou por outro filho / filha.
Os papeis sociais, conforme sabemos, são transmitidos de geração em geração dentro de uma dinâmica sócio-cultural mutável. Neste sentido, na nossa sociedade a relação pai versus filha tem sido marcada por uma cumplicidade paterna no acompanhamento do desenvolvimento da filha. Por um lado, na infância, há um comportamento peculiar à filha no sentido de querer dominar e possuir o Pai e mantê-lo sob a sua tutela a fim de controlá-lo. Para isso utiliza-se de comportamentos psico-afetivos específicos e próprios que são expressos através do choro, da chantagem, da birra, etc. São essas as estratégias políticas inerentes ao homo politicus que abordei em uma edição anterior deste semanário. Relações humanas são constantes jogos interativos de afetividade.
Com certeza a personalidade do pai influenciará no tipo de reação que terá frente ao "jogo" de sua filha. Há no comportamento da filha uma mistura de sensações e de intenções para seduzir e dominar o pai. Se ele agir de forma infantilizada a este jogo afetivo, entrando em confronto, talvez ele - o pai - "vença pela força", porém no contexto educativo isso é pouco eficaz. É evidente que em determinada situação o pai dará mais atenção para aquele que tem mais necessidade, por exemplo, em casos de doença, nas dificuldades nos estudos, nos interesses específicos de cada criança etc. Contudo, em virtude das ações e do amor que o pai disponibiliza para seus filhos é possível dizer que o amor dos pais pelos filhos é igual, portanto, a diferença evidenciada no tipo de atividade que o pai gosta de fazer com a filha e naquelas que gosta de fazer com o filho gera na representação da criança a impressão que o pai tem preferência por um em detrimento ao outro.
Francisco Moura
Professor de Psicologia da Universidade Federal de Ouro Preto


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