Uma Viagem Surpreendente: A encantada Mariana e o virtuosismo de Elias Layon

Publicado: quinta, 28 de fevereiro de 2008 as 18:56h Faça seu comentário

Visitar Minas Gerais é sempre um prazer, sobretudo quando o destino escolhido é o das cidades históricas mineiras.

Muito se tem falado sobre Ouro Preto, jóia do mais puro barroco brasileiro e talvez, um dos mais lindos complexos arquitetônicos do País. Tudo que se puder dizer de positivo ou mostrar de maravilhoso dessa cidade é insuficiente para traduzir a beleza das suas igrejas, a imponência dos seus monumentos, edifícios públicos e museus, além da atmosfera peculiar que se experimenta quando por lá se passeia pelas suas ruas estreitas, emolduradas por exuberante e preservado casario do mais genuíno Brasil dos séculos passados.

Não muito longe dali e a apenas alguns quilômetros de distância de Ouro Preto, encontramos uma outra jóia mineira, a surpreendente Mariana, um desafio a mais para o observador interessado em desvendar-lhe os excepcionais segredos. Além das suas belas igrejas e do seu esplêndido Museu Arquidiocesano de Arte Sacra, é de lá que ecoam os sons mais refinados da boa música erudita universal em um dos poucos órgãos históricos existentes no Brasil, um magnífico Arp Schnitger, presente de D. João V, a primeira capital das Minas Gerais, instalado por Manoel Francisco Lisboa, pai de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho .

A encantada Mariana é uma cidade memorável. Assistir a um concerto de música clássica da organista Elisa Freixo na sua igreja matriz - Catedral da Sé de Nossa Senhora da Assunção -, temperado com a excelente e pouco conhecida música barroca brasileira, é algo que agrada aos ouvidos, enaltece os ouvintes e alimenta a alma.

Um outro aspecto peculiar dessa cidade e sobre o qual queremos nos deter é o seu movimento artístico e cultural. A extensa produção dos ateliês de artesãos, escultores, santei-ros e pintores, enriquece a cidade e traduz a glória do passado e a pujança artística do presente. Nesse quadro inovador, há um nome que se distingue e ganha novas proporções. Foi em Mariana que tivemos o privilégio de conhecer um artista plástico de origem libanesa do lado paterno e francesa da parte materna, porém dotado de uma brasilidade que inibe o mais nato dos brasileiros, e que consegue traduzir como um grande mestre, as singelezas e as belezas peculiares e estonteantes da região. Trata-se do ELIAS LAYON, pintor e escultor dos mais completos deste nosso Brasil de hoje, do qual, além da profícua e magnífica produção artística, louvamos também o esforço na conservação e restauração de obras de arte antigas.

Detentor de grande sensibilidade e profundamente identificado com as manifes-tações religiosas locais, as suas telas mostram com maestria as Procissões de Ouro Preto e de Mariana, descortinando o casario, as igrejas e as ruas enladeiradas e sinuosas dessas cidades, encobertas enigma-ticamente por uma misteriosa bruma típica das cidades ouropretana e marianense. Esta temática religiosa encontra nele a sua maior expressão. Além disso, a sua familiaridade com os costumes e hábitos dos moradores da região e com a acidentada topografia local, dá ao seu trabalho um colorido e toques muito especiais.

É o que sentimos quando nos deparamos com pinturas que retratam cenas do cotidiano ambientadas nas ruas das cidades e nas montanhas decoradas com igrejas majestosas e uma vegetação singular. O seu trabalho de escultor sacro, ainda que mais recente do que a sua pintura, insere-se na melhor tradição artística de Minas Gerais. Com a sua largueza de visão e sua capacidade interpretativa, ELIAS LAYON compreendeu a reali-dade de Minas Gerais e a transformou em objeto de trabalho. Sua sensibilidade, aliada à sua erudição artística e sua apti-dão extraordinárias constituem com tributos densos e importantes para a compreensão da grandeza de Minas Gerais e de sua pequena-grande Mariana. Profundo conhecedor das técnicas e materiais utilizadas pelos grandes mestres do barroco mineiro como Antônio Francisco Lisboa, Manoel da Costa Ataíde, Francisco Vieira Servas, entre tantos outros, neles embebeu-se ELIAS LAYON como vectores propulsores de sua transbordante veia artística. Partindo desses elementos informadores, ele foi capaz de criar um estilo próprio, conhecido como neo-barroco mineiro, sedutor, dinâmico, poético e transcendental, apresentando uma talha de grande técnica, definição, amplitude, dramaticidade, beleza e movimento, enriquecida com uma policromia verdadeiramente esfuziante e bela executada por sua conterrânea, a artista Maria do Carmo Gamarano. Exemplos disso são as imagens de São Francisco de Assis e de São Miguel Arcanjo, aqui retratadas. As observações histórico-sociais pelas quais passamos em rápidas pinceladas conduz-nos à compreensão, que ultrapassa a fronteira de qualquer nacionalidade, de que a evolução estética do artista está acima das variantes locais e o insere em um universo artístico mais geral e abrangente.

O neo-barroco de Elias Layon, em sua manifes-tação de magnificência, fer-tilidade de criação e multipli-cidade de facetas, sofreu, sim, influência dos Mestres barro-cos, mas libertando-se do modelo de antanho, criou esse artista um estilo personalíssimo e uma estética muito própria que o credenciam a ocupar um lugar de destaque no cenário nacional.

A viagem a Mariana foi surpreendente e memorável e reafirmou em nossa consciên-cia a grandeza e a exuberância artística das Minas Gerais e do Brasil, para a qual certamente continua a contribuir Elias Layon com seu labor, criativida-de, versatilidade e dedicação.

 
Por Pedro e Virgínia Arruda
Antiquários - Brasília (DF) 

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